Terceiro Capítulo

01-06-2012 22:39

 

Jéssica

        “Quando voltei a casa levei um sermão de duas horas mas não esperava outra coisa.

        Durante muito tempo pensei em Dário… Será que ele não existia e tinha sido só uma invenção minha por estar bêbada? Não sei… Olhei para o ecrã do meu telefone, ainda lá tinha gravado o número de Dário que achava eu que ele me tinha dado. Devia experimentar ligar-lhe mas receava que não atendessem ou que alguém que não conhecesse de lado nenhum perguntasse quem era por isso preferi adiar a chamada para outra altura. Dário deveria ser um excelente amigo e eu não me queria desiludir.

        Na escola tudo decorria com normalidade que começava a ser maçadora a única coisa que agora acontecia que não era normal era uma antipatia visível e desconfortante entre John e eu. E na verdade a antipatia ia-se pegando e a minha turma tinha entrado numas brigas com a turma de John pois um rapaz que pelos vistos tinha uma paixoneta por mim ouviu o John lançar-me um comentário desagradável e atirou-se a ele uns amigos de John tentaram impedi-lo mas gente da minha turma tentou defender o colega… Acho que já perceberam a ideia. E acho que isso não é a maneira ideal para sair da rotina.

         Mas tudo isto iria mudar numa aula de matemática quando a professora nos apresentou uma aluna nova.

        Era uma miúda franzina, tinha uma madeixa vermelha, o cabelo era oleoso e preto, estava maquilhada de um horrível gosto muito forte e no pequenino nariz reluzia um piercing. A sua pele era muito morena e os olhos eram verdes brilhantes. Tinha cara de poucos amigos e de quem era um pouco convencida mas os olhos ameigavam-lhe a expressão.

       Sentou-se atrás de mim e ao contrário do que eu esperava não disse nada durante a aula, mas também não parecia muito concentrada.

       Quando ia a sair da sala ela ia a olhar estupidamente para o ar e chocou contra mim.

       -Desculpa-Disse ela sem modificar a expressão.

       Na aula de educação física Jéssica sentou-se ao meu lado.

       -Olá.- Disse ela.

       Não respondi pois adorava ouvir as regras dos jogos, o futebol, o basquetebol, o andebol… Não sei… Fascinam-me… Fico absorvida naquilo. Não a jogar claro. Isso é desastre! Mas gosto de saber como aquilo funciona. Gosto de conhecer os mecanismos das coisas. Aqueles desportos são como guerras civilizadas. Gostava de me poder dedicar a criar desportos. Mecanismos sem roldanas. Não consigo explicar isso.

       -És surda ou fazes-te? – Continuou ela.

       -Olá - disse eu com um sorriso amarelo.

       -Sou a Jéssica.

       -Teresa. – Continuei eu fazendo uma carinha de afectada – Entrar a meio do ano não deve ser fácil pois não?

       -Fui expulsa do meu colégio antigo.

       -Porquê?

       -Por causa da droga.

       -Tu gostas disso? – Perguntei eu.

       -Olha… Gosto. Mas agora anda toda a gente em cima de mim. Tipo, não tenho autorização para sair de casa sozinha! Achas normal?! E ainda perco o meu tempo precioso naquelas terapias que o meu pai tem a mania de me fazer.

       -Pobrezinha!

       -Sinto-me presa por nada, em sofrimento por ninguém e tremendo sem frio.

       -Já pensaste que te podes divertir com outras coisas?

       -Sim. No início também pensava como tu. Mas tal como toda a gente amadureci e percebi que estava a ser infantil. Eu sempre acreditara que os erros se remediavam, que os finais acabavam sempre em claro mas percebi que já cometi o erro e o meu caminho mudou de direcção assim que me viciei naquilo. Posso tentar mudar de direcção outra vez mas a única coisa que posso conseguir é perder-me. A minha regra de moral principal é que em qualquer circunstância a alma acompanhe o corpo.

        Eu e a Teresa tornámo-nos amigas, admito que não a conseguia acompanhar em maior parte do raciocínio e acabava por a idolatrar (achava-a espertíssima). Confesso que sou muito ingénua e imatura para a idade ou pelo menos era agora fui obrigada a crescer. Nesta altura ainda era possível alguém me convencer de novo que o Pai Natal existe na maior das facilidades.”